07 novembro 2006

Uma imprensa, dois países

Thais Sardá

As fronteiras dividem politicamente, mas serão capazes de dividir de fato a sociedade? Embora a língua e a cultura sejam diferentes, a proximidade entre dois centros urbanos, em alguns países separados apenas por um passo, dão aos pequenos jornais a chance de participar da integração latino-americana.

Em fronteiras como Santana do Livramento e Rivera ou Uruguaiana e Paso de Los Libres, na divisa entre o sul do Brasil, Argentina e Uruguai, povos se aproximam além do espaço físico. Karla Müller, pesquisadora que aborda a participação dos jornais fronteiriços no processo de integração, defende as regiões de fronteira como pontos estratégicos para a globalização.

Com o intuito de integrar, o jornal A Platéia, de Santana do Livramento (RS), teve como iniciativa a veiculação de um caderno todo escrito em Língua Espanhola.

– Constituir-se uma identidade e uma cultura fronteiriças é fundamental para a integração latino-americana. Ainda mais que hoje a questão do idioma, nessas regiões, já foi superado, diz Karla.

____________________________________________foto: Juliana Maia
Karla Müller

Em meio à tentativa de unir, os jornais de fronteira podem ser beneficiados, pois têm um mercado potencial considerável. Embora as tiragens sejam baixas - de três a quatro mil exemplares -, e o número de assinaturas no exterior ainda seja baixo, os jornais prestam um serviço especial aos brasileiros vivem fora do país.

A pesquisa também aponta que assuntos iguais desenvolvidos sob perspectivas culturais diferentes se completam. Contudo, enquanto os jornais brasileiros tratam as questões da fronteira de forma genérica, os jornais estrangeiros têm o hábito de se posicionar mais claramente em sua defesa.

Para Karla, os assuntos que lidam com entidades locais, mesmo de outro lado da fronteira, são tratados como um noticiário local. Já os temas que envolvem as esferas estadual ou nacional são tratados como noticiário internacional. Essa divisão construída especialmente pelos jornais fronteiriços evidencia o grau de integração das regiões. Os veículos distantes da fronteira, entretanto, tratam esses assuntos, de acordo com Karla, com um certo preconceito.

– A Veja, por exemplo, tem um discurso sempre negativo, chega a usar adjetivos como "ladrões" e "incompetentes".

Nos últimos anos, Rivera e Santana do Livramento estabeleceram que todos os nascidos nas duas cidades têm, automaticamente, nacionalidade dupla.

– O rio divide e o homem constrói a ponte para ligar, diz Karla.

Apesar de acreditar que o processo de integração latino americano tem como ponto forte a possibilidades de globalização iniciado pela mídia, Karla Muller lembra que o principal ponto de distanciamento entre os países da América Latina é o interesse econômico. A língua não seria mais uma barreira, já que e os pensamentos estariam a cada dia mais próximos.